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"Aqui é um lugar de paz" - E.D.I.


Hoje, como todos os dias, fui levar meu filho de três anos para a escola do município do Rio de Janeiro, Escola de Desenvolvimento Infantil, a E.D.I.. A diretora, na hora da entrada dos pequenos alunos, mudou o procedimento. Chamou todos os alunos e também os pais para dentro do estabelecimento.
Sem nada falar, começou a tocar uma versão em português da música de Michael Jackson - Heal the world (make it a better place). Todos ficaram em silêncio ouvindo a canção. Alguns a cantavam. Estávamos todos formando uma imensa roda na quadra da escola.
Ao final da canção, a diretora começa a explicar que as escolas do município do Rio de Janeiro decidiram fazer este ato simbólico contra a violência na cidade, que faz vítimas de todos os lados: policiais, criminosos, inocentes, crianças, alunos. Uma violência desenfreada, crescente e insana
Este ato simbólico visava a tocar nossos corações, para que de alguma forma, todos ali pudessem parar por alguns minutos, neste nosso mundo acelerado e enlouquecido, e pensar em tudo o que está acontecendo. O mundo não para, eu sei, mas não podemos simplesmente seguir reagindo sem pensar.
Pediu que todos ali, de acordo com sua religião ou ausência religiosa, fizesse uma oração ou algo do gênero. Pediu que vibrássemos positivamente contra esse estado insano, que não é de hoje, mas continua vitimando muitas pessoas. A vida, a nossa e a dos outros, deveria sim ser o nosso maior valor e objeto de todo o nosso respeito.
Ao final pediu para que os pais pendurassem na entrada da escola uma faixa com os dizeres: "Aqui é um lugar de paz". É um ato simbólico, mas essencial. No início, quando a diretora pediu que entrássemos, meu primeiro pensamento foi: algum aluno deve ter sido vítima de arma de fogo, por isso ela quer conversar com todos. Não foi o caso. Não nesta escola.
Quem acompanha o noticiário viu que nestes dias, duas meninas foram vítimas de armas de fogo. Dentro da escola. Mas não foram as únicas vítimas. Nestes últimos dias morreram policiais e outras pessoas.
Nós, moradores da cidade do Rio de Janeiro, não podemos nos transformar em simples contadores de corpos. Também não creio que se deva blindar as escolas como forma de proteção contra esta chamada "guerra ao tráfico", que faz vítimas inocentes as quais são chamadas de "dano colateral". Isso tudo me parece muito errado, reativo e impensado. E eu também posso estar errado.
Mas não deixa de ser horrível ver pessoas de todos os tipos compartilhando notícias falsas pelas redes sociais, dizendo que o tiro que acertou Maria Eduarda, por exemplo, veio de um fuzil de um criminoso. Além da notícia ser falsa, mentirosa, ainda traz em si um objetivo bastante perverso: o de livrar a culpa da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, uma das que mais matam no mundo, tentando justificar o injustificável. Perdemos uma vida. Aliás, perdemos várias. Todos nós perdemos e essa discussão estúpida sobre de onde veio o tiro, não trará as vidas de volta, não trará conforto aos familiares que ficaram, não fará nada além de alimentar ainda mais a insanidade voraz dos que apoiam as execuções de bandidos, tendo os inocentes assassinados como "danos colaterais".
Sai da escola com o choro preso na garganta. Escrevo este pequeno texto ainda com as lágrimas presas em mim. Não aguento mais ver tanta desumanidade. Que tipo de sociedade nós formamos? Não respeitamos nada. Passamos por cima de tudo e de todos como se tudo fosse uma disputa.
- O tiro foi do bandido.
- Não. Foi da PM.
- Tem que matar vagabundo mesmo.
De certo modo, por vivermos em uma pretensa democracia, penso que seja válido sim você defender a pena de morte. É o que você acredita como solução para a violência? Ok. Defenda, mas defenda até que a pena de morte se transforme em lei, seja julgada pela justiça e executada pelo Estado após o veredito final de um julgamento.
Não aceito que você use covardemente a tão dolorosa morte de inocentes como aparato para defender este tipo de insanidade. Tenha respeito com os familiares das vítimas. Tenha respeito por pessoas como eu, que defendem a vida acima de tudo. O respeito também é um valor da democracia. Execução sumária e ou aleatória, causada pelas mãos do Estado através da PM, não é pena de morte como um dispositivo da lei. É homicídio. É feminicídio. É execução sem direito a julgamento, sem direito a defesa, sem direito a salvar a vida de inocentes.
"Aqui é um lugar de paz" - E.D.I.

(Conteúdo da imagem disponível em http://prefeitura.rio/web/smeel/exibeconteudo?id=6896238)

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