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“Protestos forçarão o Congresso a alterar reformas de Temer”

Para historiador, manifestações contra as reformas da Previdência e de leis trabalhistas tendem a crescer. Foto EBC.
Multidões saíram às ruas de todo o País nessa quarta-feira (15) para protestar contra o governo de Michel Temer e suas propostas de reformas da Previdência e de leis trabalhistas. Diferentemente das manifestações contra o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, os atos de ontem, apesar de convocados pela esquerda, conseguiram a adesão de diversos setores da sociedade. Também foi organizada uma greve geral que há muito não acontecia no Brasil.

Para Lincoln Secco, historiador, professor da Universidade de São Paulo e colunista da Brasileiros, os protestos contra as medidas de Temer tendem a crescer e o Congresso será forçado a “diminuir o estrago” nos direitos dos trabalhadores.

Leia abaixo a entrevista completa:

Revista Brasileiros – Como o senhor avalia a dimensão dos protestos de ontem?

Lincoln Secco: É difícil avaliar porque há um silêncio muito grande da imprensa. Eu estive no de São Paulo e achei o protesto muito significativo, no mínimo do tamanho daqueles grandes protestos que a esquerda organizou o ano passado, contra o impeachment. Ocorreu em pelo menos 19 capitais, várias outras cidades. Foram protestos muito importantes, sem dúvida.

O senhor tem a impressão de que esses protestos, convocados pela esquerda, conseguiram unir diferentes setores da sociedade?

Historicamente, os protestos são sempre compostos de uma maioria que responde a um chamado de manifestação de esquerda. Isso é normal. Mas a repercussão dos protestos é que dessa vez atinge uma população muito maior, para além até de eleitores da esquerda. Isso porque se trata de duas questõe, a reforma trabalhista e a da Previdência, que atingem a totalidade da classe trabalhadora brasileira. Muito diferente daquele momento de luta contra o impeachment. No ano passado, havia também protestos de massa a favor do golpe. Mas nesse ano eu duvido que tenha protestos de massa a favor de uma reforma que tira direitos até de pessoas que eram de oposição a Dilma Rousseff, que apoiaram o golpe. E o clima no País também mudou em poucos meses. O governo Temer tem uma baixíssima popularidade, não tem publicado nem pesquisas a respeito disso. Até acredito que, se fizessem hoje uma pesquisa hoje, diminuiria a margem de pessoas a favor do impeachment de Dilma. O Lula está em primeiro lugar nas pesquisas, depois do massacre que ele sofreu, o que é surpreendente também. E pode ver que a lista do Janot já não teve impacto nenhum. A reforma da Previdência encobre a lista do Janot. É uma questão muito mais importante para as pessoas do que discutir pela enésima vez a corrupção entre os políticos. Também porque o PT já não é mais governo. Parte da indignação com a corrupção se misturava com a oposição ao PT. Uma vez que o PT sai do governo, a preocupação com a corrupção tende a cair.

E qual o impacto de ontem na aprovação dessas reformas?

Eu sou pessimista. Acho que a reforma passa de qualquer jeito. O que está em disputa é como ela passa, com 100% do que o governo quer, o que eu duvido, ou se as entidades sindicais e partidos conseguem defender pelo menos alguns direitos. Eu acho que os protestos de ontem, mesmo com o silêncio da imprensa, são percebidos pelos políticos – eles não são bobos. Sabem que tem eleição no ano seguinte. Essa vai ser a medida mais impopular da carreira deles, com toda a certeza. Então acho que a continuidade dos protestos vai forçar o Congresso a pelo menos diminuir o tamanho do estrago que querem fazer nos direitos dos trabalhadores.

Os deputados têm um instinto de sobrevivência eleitoral. Estão buscando uma maneira de aprovar a reforma como um todo, mas tirar as partes mais fortes e simbólicas. Por exemplo, diminuir a idade mínima, diminuir o tempo de contribuição, acho que 49 anos não passa.

O senhor espera novos protestos?

Sem dúvida. Com a aproximação da votação da reforma, especialmente numa data próxima da votação final. Devem promover pelo menos mais um grande protesto.

Como o senhor avalia a presença de Lula ontem no protesto de São Paulo?

Por um lado, é uma questão histórica. Ele sempre esteve nesses protestos porque é símbolo da luta sindical no Brasil. E não é mais governo, isso permite que ele esteja lá. Claro que também faz parte de uma estratégia do PT de lançá-lo prematuramente candidato à Presidência da República. E independentemente de como a gente julga isso, tem um lastro, que é o fato de que ele está em primeiro lugar nas pesquisas. Mas o discurso do Lula não foi de candidato, e, ao contrário da fala do ano passado, foi mais radical. O ano passado, no auge do golpe, ele fez um discurso altamente conciliador. Agora não, ele falou a palavra ‘golpe’, fez uma critica direta a Temer e Meirelles, uma pequena inflexão à esquerda, que é natural também, com ele na oposição.

A figura de Lula num protesto como esse aglutina ou cria uma cisão na oposição a Temer?

Acho que não cria cisão porque nesse caso é uma união em torno de um interesse muito concreto – barrar a reforma da Previdência. A Força Sindical, a CGT, entidades que negociam com o governo, Paulinho da Força é da base do governo, eles também estão na oposição à reforma da Previdência. Acho que nesse momento qualquer político vai aglutinar. Essa cisão vem só no próximo ano, caso haja eleições normais no Brasil, coisa que não sei. Havia pequenos grupos de esquerda que eram contra a presença do Lula. Eram poucos, mas isso não é comum, no passado era impossível.

A gente vai ter que esperar os próximos protestos porque é uma questão que ainda vai aumentar de tamanho na política nacional. Cada vez mais, as pessoas comuns vão se informar sobre a questão da Previdência, que toca todas as pessoas individualmente. Todo mundo algum dia quer se aposentar. Os protestos tendem a crescer. Pelo menos o protesto final tende a ser bem maior do que o de ontem.

A greve geral de ontem juntou diversas categorias na paralisação. Fazia tempo que não havia uma greve como essa no País?

Sim. Não foi uma greve geral como acontecia nos anos 1980. Mas foi um avanço porque em diferentes estados uniu professores, funcionários públicos, correios e especialmente paralisações dos transportes em alguns momentos do dia. Além de congregar estudantes e diversos movimentos sociais.

(Via Brasileiros)


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